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Xavier Baptista
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Textos

Liturgia da Combustão

 

Um som ao longe, ouvi um leão a rugir,

uma máquina que obedeceu à minha respiração.

É um momento de enorme tentação,

como se o destino tivesse escolhido existir.

 

Ele arranca e agora desperta.

Há um instante sagrado,

em que o silêncio reina absoluto,

antes de ser quebrado.

 

O motor é potente, elevado.

Uma relação metálica, engenharia brutal,

um trovão domesticado, controlado,

um cheiro a travão — quente, visceral.

 

Como se o mundo tivesse um coração

e eu estivesse dentro dele, vivo e fatal.

A sensação de o conduzir é combustão,

um pacto físico, inevitável.

 

Não vivo sem ele. Sinto a vibração.

Não é ideia — é realidade concreta.

Tudo fictício ou nada abstrato?

Tudo é peso, é destino, é meta.

 

O volante não se segura — aceita-se.

Corrige erros antes de eu existir neles.

Há uma inteligência sem nome

a viver nos gestos dele.

 

A estrada deixa de ser estrada.

Torna-se uma linha inevitável, perfeita.

Não me guia — reconhece-me.

Não me leva — aceita-me.

 

O mundo abranda.

O tempo curva-se à minha passagem.

Não é velocidade — é verdade.

Não é movimento — é linguagem.

 

E eu descubro-me.

Não há sensação maior que esta.

Sob o céu aberto, verde e rubro,

sou o pincel, a máquina, e a tela manifesta.

El Matrix
Enviado por El Matrix em 17/02/2026
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