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Liturgia da Combustão
Um som ao longe, ouvi um leão a rugir,
uma máquina que obedeceu à minha respiração.
É um momento de enorme tentação,
como se o destino tivesse escolhido existir.
Ele arranca e agora desperta.
Há um instante sagrado,
em que o silêncio reina absoluto,
antes de ser quebrado.
O motor é potente, elevado.
Uma relação metálica, engenharia brutal,
um trovão domesticado, controlado,
um cheiro a travão — quente, visceral.
Como se o mundo tivesse um coração
e eu estivesse dentro dele, vivo e fatal.
A sensação de o conduzir é combustão,
um pacto físico, inevitável.
Não vivo sem ele. Sinto a vibração.
Não é ideia — é realidade concreta.
Tudo fictício ou nada abstrato?
Tudo é peso, é destino, é meta.
O volante não se segura — aceita-se.
Corrige erros antes de eu existir neles.
Há uma inteligência sem nome
a viver nos gestos dele.
A estrada deixa de ser estrada.
Torna-se uma linha inevitável, perfeita.
Não me guia — reconhece-me.
Não me leva — aceita-me.
O mundo abranda.
O tempo curva-se à minha passagem.
Não é velocidade — é verdade.
Não é movimento — é linguagem.
E eu descubro-me.
Não há sensação maior que esta.
Sob o céu aberto, verde e rubro,
sou o pincel, a máquina, e a tela manifesta.